11 de setembro de 2014

Resultado do concurso “Um futuro sem livros”

Enfim, saiu o resultado do Concurso Cultural “Um futuro sem livros”.

E o vencedor é…

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Parabéns, Adriano Gutemberg Neves Dias!

Como combinado, a Editora Biruta enviará ao vencedor um exemplar do livro 2083, de Vicente Muñoz Puelles.

E agora, que tal conhecer o texto vencedor?

Quarta-feira ensolarada, 09 de setembro de 2083 – relato nº 234*

Desde 2040 que não há mais livros impressos. Segundo vovó Eloise, um ditador que governava nosso país recolheu todas as obras de bibliotecas, livrarias e residências. Ele alegava que a leitura era perigosa. Por isso, queimou tudo num grande espetáculo e chamou a atenção sobre os castigos aplicados a quem fosse contra suas ordens. Ter um livro em casa vai contra as normas atuais. Confrontar o sistema e tentar adquirir livros no mercado negro é um caminho tortuoso e arriscado.

A derrubada de quaisquer espécimes vegetais se tornou crime e os infratores são condenados à morte. Já, a partir de 2062, todos os livros eletrônicos foram perdidos pela ação de um poderoso hacker. Nasci em 2067 e nunca aprendi a ler, afinal de contas, pra que saber ler se não há mais livros no mundo? Bem vindo a 2083, esse é o meu mundo. Um mundo onde não há livros e ler é opor-se ao sistema.

Vovó nunca falou comigo sobre o que ela lia e o porquê dela gostar tanto de desvendar aqueles códigos estranhos. Um dia ela desenhou uma frase na areia e a leu pra mim, mas antes que eu pudesse pedir explicações, ela apagou bruscamente com o pé. Um guarda estava vindo em nossa direção.

Em outro momento, perguntei a vovó como era o mundo antes de termos os livros erradicados. Ela me confessou que poderia viajar para qualquer lugar do mundo sem sair da sua poltrona. Imaginei que ela estava caducando, mas quando ela disse que podia imaginar reinos mágicos, fadas, dragões, centauros, bruxas, vampiros e alienígenas, eu tive certeza que o ditador fez certo em proibir os livros. Seria perigoso deixar essas “coisinhas” fazer uma lavagem cerebral na cabeça dos leitores.

Um dia antes de dormir, escutei minha avó rindo sozinha e conversando sobre uma batalha épica entre o bem e o mal. Olhei pelo buraco da fechadura e vi: vovó tinha um grande objeto aberto em seu colo, com páginas amareladas e símbolos amontoados. Ela se divertia com aquilo e eu fiquei curioso em saber o motivo daquilo.

No outro dia, voltando do treinamento perguntei a vovó o motivo dela esconder o livro. Prometi segredo e ela me confessou: “aquele livro é a única lembrança que me resta de seu avô. Ele me presenteou com aquele exemplar logo que nos conhecemos. Lemos e relemos cada frase daquela estória por muitas noites em nossa vida. Eu e seu avô compartilhamos o gosto pela leitura por décadas, até que ele partiu antes de mim. Hoje, leio sozinha e em segredo, mas continuo partilhando meu amor com ele. O livro nesse tempo sem esperança é como o espírito santo: não podemos ver, não podemos tocar, mas sabemos que ele está sempre ali, em algum lugar escondido. O governo pode até nos tirar os livros, porém ele nunca tirará esse livro de mim”.

*O relato número 234 foi coletado pelo agente Moraes através do depoimento de uma jovem analfabeta e pobre de 16 anos.

 

Ficou muito legal, né?

Durante a Bienal, recebemos vários textos para o Mural do Futuro e até o fim do ano colocaremos mais alguns aqui!

Mural do Futuro

 

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