19 de novembro de 2015

Papeando com Laurent Cardon

O Papeando de hoje está super divertido, e diferente. O autor e ilustrador francês, Laurent Cardon, contou muitas coisas sobre sua trajetória no mundo dos desenhos, ilustrações e animações, além de explicar como é o seu processo de criação, onde ele gosta de buscar inspiração e muito mais!

Vamos papear?

Quem é Laurent Cardon?
Um emigrante francês que deixou as ruas de Montmartre e os lilong de Xangai para fazer seu ninho no Brasil em São Paulo, há vinte anos atrás. Um ninho de papel de animação, ilustração e de pai de 2 filhas. Com formigas no pé, como todo bicho geográfico que se respeita, e uma vontade insáciavel de riscar e rabiscar, resolveu morar também a 24 imagens por segundo na Coréia e no Vietnã por alguns anos durante esse período. Uma pessoa que gosta tanto de criar histórias e desenhar que, dizem por aí, teria agradecido ao céu( ou ao mar) se sua mãe fosse uma “polva”, para herdar oito braços e colocar em imagem tudo que passa por sua cabeça.

O melhor lugar para o surgimento de riscos e rabiscos é…?
Sem dúvida, na minha cabeça, que levo pra lá e pra cá, que não me deixa em paz e é capaz de me parar no meio da rua e me obrigar a tirar meu caderninho, meu melhor parceiro do bolso direito e traseiro, para anotar, desenhar uma ideia, ou imortalizar algo que desperta a minha atenção. Eu adoro sentar em mesa de bar ou restaurante na calçada para achar inspiração, em varandas ao som da natureza e longe da internet, e no meu estúdio para finalizar meus trabalhos.

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Quem é o melhor amigo criado por você?
Difícil responder, já que sou bem eclético e trabalho com linguagens bem diferentes. Mas, de forma geral, os personagens que mais me tocam são aqueles que tem uma personalidade complexa, que atraem mais por serem singulares e indecisos, que, de certa forma, são anti-herois. Eu tenho um imaginário cínico demais para criar personagens sabidos que tem resposta para tudo. Eu gosto da minha aranha, em Aranha por um fio. Gosto do Joca, o mico-leão mascote que fiz para o jornal JOCA. Ele é um personagem culto, filósofo, crítico, nervoso, briguento e metido. Apesar dos seus defeitos, é um palhaço, é interessante, tem curiosidade e quer aprender…ele faz bastante sucesso por isso.

O que te fascina no mundo dos desenhos e animações?
Vasta pergunta… Sempre desenhei muito, mas um momento chave na minha vida foi quando resolvi estudar animação na escola Les Gobelins, em Paris. Senti que minha carreira estava toda traçada. Acho que todo desenhista, em algum momento da sua vida e da sua carreira sonha em dar vida aos seus personagens ou poder passear nos seus próprios cenários. Fico fascinado só de pensar que, a partir de uma sequência de desenhos fixos, se pode criar a ilusão do movimento, a riqueza de decompor o movimento e as emocões em fragmentos de segundo. A animação foi, pra mim, uma extensão da ilustração. Mas, hoje, eu diria que a ilustraçao é que se trata de uma extensão da animaçao.
Eu comecei a ilustrar meus primeiros livros aqui no Brasil e vejo que a animação “soltou” meu traço, me liberou de uma linha detalhista que engessava meu desenho. E eu busco, desde então, expressividade, movimento e uma representacão muito cinematográfica nos enquadramentos, no trabalho da luz .
Hoje, sou autor de oito livros de imagem que traduzem bem essa busca que tenho, de ver até que ponto podemos contar uma historia sem texto, como se fosse um story board de filme de animação.

Quem é seu/sua companheiro/a de aventuras (reais ou lúdicas)?
Minha esposa Ligia, que vive desenrolando os tentáculos que saem da minha cabeça para tentar decifrar o meu imaginário.

Desenhar é…
…equivalente a quatro desses tentáculos. Criar roteiros e histórias são os outros quatro.

Qual é a parte mais legal desse processo (desde o surgimento da ideia até a concretização do trabalho)?
Adoro rascunhar. Meus cadernos estão cheios de histórias novas, de rabiscos, de desenvolvimento de projetos, e agora estou na fase de fazer livros ilustrados com meus próprios textos. O primeiro vai ser lançado na França, no ano que vem. Tenho muito mais prazer em fazer o rough, quer dizer, o rascunho das ilustrações, do que finalizá-las… Me arrasto muito quando preciso passar a limpo. É sempre uma tortura manter a espontaneidade do traço inicial.

Se não trabalhasse com Desenhos e Cinema, ou convivesse com mundos e personagens, o que você faria?
Antes queria dizer que, dentro da literatura infantil, infantojuvenil e da animação, não gosto só de produzir, mas também de ensinar e ir nas escolas para despertar tanto o gosto da literatura, como trabalhar a narração com alunos e professores. Dou aula de cinema (ficção) e de linguagem cinematográfica, e tenho o prazer de rodar filmes com alunos (crianças e adultos), além de fazer workshops de story board para profissionais.
Agora, fora de tudo isso, que já bastaria pra mim (rs), sou apaixonado por biologia e, durante muito tempo, tive um interesse profundo por herpetologia (até teria seguido esse caminho!). Por pura coincidência, atualmente tenho trabalhado muito como designer gráfico para o Instituto Butantã.

Por que decidiu se aventurar pelo universo da literatura infantil?
Além do que eu já falei sobre meu interesse na literatura infantil, também me aventurei porque gosto de fuçar e cutucar o imaginário infinito das crianças. É um poço sem fim onde meus tentáculos se identificam.

Como é o seu processo de criação?
Depende muito se trabalho em um projeto pessoal ou a partir do texto de um autor.
Por exemplo: quando criei essa coleção Que bicho sou eu?, sobre o desenvolvimento das funções vitais dos animais, tive que fazer uma busca avançada na internet para conhecer o comportamento, a anatomia e a fisiologia desses animais para pescar as ideias. E para a criação e o estilo gráfico, começo sempre a trabalhar os personagens com os cenários (quando tem) em silhueta preta, para não me prender a detalhes, mas tentar harmonizar os elementos entre eles e as formas entre elas. Estudando todas as combinaçoes possíveis, vai muito mais rápido e desprende dos vícios de estilo que temos naturalmente como ilustrador.
Para ilustracão de texto, eu imprimo o texto inteiro e vou lendo e relendo, anotando e marcando todos os elementos relevantes que preciso destacar na ilustracão. Durante dias e dias vou rabiscando ao lado do texto e no meu caderninho. Uso a internet para pesquisar sobre como esses temas e o tipo de personagem estão sendo representados. Faço isso para me inspirar, ou muitas vezes para me “desinspirar”, fugindo do que já foi feito.

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A melhor página em branco é…
Aquela que se sabe que vai poder jogar no lixo se errar, e pegar uma nova.

Que lugar do mundo poderia virar o cenário de um livro seu?
Como morei 7 anos na Ásia, o Oriente, mais do que a França, sempre foi uma fonte muito importante no meu trabalho, tanto nas técnicas de ilustração chinesas como na cultura e na estética de forma geral. Desenhei tanto na rua nas minhas horas vagas, fazendo cadernos de viagem sentando em todo lugar possível e imaginável, percorrendo esses países fazendo croquis de pessoas ou arquitetura, que fiquei muito impregnado dessa cultura.
Foi de lá que nasceu meu livro Flop, a historia de um peixinho japonês na china e minha fonte de inspiração para ilustrar Histórias Chinesas, de Ana Maria Machado. Tenho no bolso várias outras ideias de histórias ambientadas na Ásia .Vocês podem ver alguns desses trabalhos no meu blog.

  

Títulos da Editora Biruta e Gaivota, ilustrados por Laurent Cardon:

Aranha por um fio,  Sapo a passoVagalumice, Vai e vem, Sete Patinhos na Lagoa, O Maior Mágico do Mundo, As aventuras do Príncipe Reizinho e Contos Encantados da Princesa Tudo-Rosa e Cantos para os meus netos – Poemas de Victor Hugo.

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