27 de junho de 2013

Papeando com Adriano Messias

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Adriano Messias é escritor, tradutor, adaptador de diversas obras e um amante de literatura fantástica. Que toró! – Dia de chuva e O passeio dos brinquedos – dia de sol são seus livrospublicados pela Editora Gaivota. Já pela Editora Biruta, publicou os seis livros da coleção Contos para não dormir, na qual conhecemos o protagonista André. Adriano tem uma relação muito especial com esse personagem. Por que você não lê nosso “Papeando” para descobrir?

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Quem é Adriano Messias?

Sou um escritor estudioso e que acredita no esforço pessoal, sem proselitismo. Sou um cara que tem certeza de que a satisfação na vida advém de um compromisso consigo mesmo e com o mundo. Meu lado pesquisador me mostra que o escritor se faz. Nada vem pronto, nada é puro “dom”, e o que se chama “vocação” é só um empurrão. Se entendermos que nossa vida é consequência de nossas escolhas, conseguiremos escapar mais dos engodos que armamos para nós mesmos. Sou, assim, um homem que lê, que busca, que pesquisa, que vai ver para saber como é… O mundo é arquitetado na linguagem e pela linguagem. No fundo, é isso o que temos para trabalhar.

O melhor lugar para o surgimento de riscos e rabiscos é…

Eles surgem em todo lugar, como aquelas plantinhas baldias que acabam por desabrochar onde menos esperamos: por que, afinal de contas, um limoeiro insiste em nascer grudado ao meio-fio, sabendo-se fadado a, em breve, não mais existir? Os riscos e rabiscos são assim: resultado de impressões – quase sempre imagens -, ou de palavras desse aleatório e dessa desordem que percorrem a linguagem humana. Às vezes, como o limoeiro no meio-fio, os riscos e rabiscos não se desenvolvem muito. Em outros momentos, viram uma produção interessante. Há divertidas experiências de “arrebatamento” pela linguagem quando estamos no metrô, subindo uma escadaria, tomando banho… Claro, não há nada de sobrenatural nisso: basta um desligamento das preocupações comuns para vermos que a palavra está sempre lá, insistente. Parece-me que é a força do significante, mais do que do significado, que conduz as coisas, em grande medida.

O melhor amigo criado por você?

O André, da série Contos para não dormir (Editora Biruta) é um adolescente com muitos questionamentos. Tem uma profundidade que incomoda e, ao mesmo tempo, estimula e acolhe. Não sei se ele é o melhor amigo criado por mim, pois também tem um gênio difícil. Mas, chega de idealizações, não é mesmo? É difícil lidar com essa palavrinha enganosa, o tal do “melhor”… Se eu conseguir criar um amigo suportável e que tenha escrúpulos e um pouco de fidelidade aos companheiros, já fico contente. Acredito que o André é um pouco assim…

Uma viagem inesquecível seria nas páginas de qual livro?

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Penso que nas grandes epopeias, nos livros de temáticas universais. Em um extremo, A Odisseia, de Homero; em outro, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A distância temporal e autoral de ambas as produções não impede que o leitor mergulhe nas grandes questões da travessia humana. São livros densos, cheios de poesia, de descobertas e de encantamento.

Qual é seu companheiro favorito de aventuras?

Sou o grande defensor dos monstros, e isso está evidente em meu trabalho e em minha tese de doutorado, que trata da literatura e do cinema fantástico. O companheiro favorito de aventuras será sempre um vampiro mal compreendido, um fantasma desalojado de seu castelo, um lobisomem perseguido por controladores de zoonoses. O “outro” é sempre o que nos causa estranheza, preconceito, pavor. Mas, se não permitirmos conhecer um pouco esse “outro”, não haverá muita esperança para os problemas humanos. Assim, um monstrinho é sempre um rico e interessante companheiro de aventuras literárias. O monstrinho é a expressão dos “outros” que tantas vezes não suportamos.

Escrever um livro é, antes de tudo…

Domar a linguagem, muito antes de qualquer concepção romântica de evasão ou sublimação de ideias. Escrever é um ato difícil, ao contrário do que vemos hoje, pois o excesso de textos que o mundo das tecnologias virtuais nos proporciona e a facilidade com que alguém vem a ser considerado escritor faz com que muita gente acredite que basta se assentar em frente ao computador e criar uma história. Ah, se fosse apenas fazer uma história!.. Mas não é. Texto é forma, e a língua materna pede estudo, entendimento, ensaio. Quantos anos são necessários para o corpo se dobrar e desdobrar aos passos do balé? E por que um escritor se faria em um estalo de dedos?

Se não inventasse mundos e personagens, o que Adriano Messias faria?

Sou muito curioso. Qualquer outra profissão que eu seguisse teria de ter relação com descoberta e criatividade. Eu teria uma profissão que me permitisse conhecer o mundo, as coisas do mundo, os seres que nele vivem. Quando criança, era fascinado por zoologia, pelo universo dos insetos, por exemplo. Por outro lado, achava inacreditável viajar por terras distantes. Adoro geografia. Um piloto de avião, por exemplo, seria algo muito convidativo nesse ponto de vista. Em questão de horas, sobrevoa-se o deserto do Saara, chega-se a terras mais frias, passa-se sobre rios, montanhas, cidades. Tanta coisa por ver, muito por se descobrir. Como também pela escrita.

Por que literatura para os jovens?

Porque eu fui um adolescente que amava livros e que teve livros à disposição. Na biblioteca de minha escola pública, lá em Minas Gerais, havia um programa do governo chamado “Salas de Leitura”. Aquele programa levava livros de montão às escolas, e eu literalmente vivia mergulhado naquela sala sempre cheia de novidades. Tomava muitos livros emprestados, vivia rodeado por tudo o que queria ler. A literatura nos salva de várias formas e acredito que o Brasil melhorará bastante quando os investimentos na formação cultural de todos forem mais consistentes. Fala-se o tempo todo em recursos paliativos, em soluções extremas para o estado de violência, de atos hediondos, de uso de drogas a que uma parcela da juventude tem chegado. Quando, porém, se olha para o que não foi feito, fica-se a lamentar. Parece que muita gente ainda não consegue avaliar a capacidade que um livro tem de organizar a vida, resgatar a condição humana e ajudar o sujeito a se reconstruir. E, sem didatismos: o livro, por si só, tem a força de tornar as pessoas mais sensíveis. É ler por ler. Ler porque é gostoso, porque é divertido, porque é bom.

Onde você fica e o que faz quando busca inspiração?

Como eu disse, não acredito muito nas ideias difundidas pelo romantismo, e que ainda vigoram, em torno do processo de escrita como algo que viria de fora, uma espécie de força estranha e alheia ao sujeito que o tomaria e em que as palavras jorrariam como de uma fonte, e o pobre do escritor, quase possuído, tivesse que se esforçar por capturá-las. Sendo escritor, não há nada que me separe da minha vida como sujeito: é uma coisa só. Assim, a gente é escritor o tempo todo. Há momentos em que escrevo movido por aquelas imagens que surgem, que chamo de “provocações”, e que podem se tornar alguma coisa. Podem, mas não têm necessariamente. O que desconfio é que as produções de nosso inconsciente, sobretudo expressas nos significantes, nos circundam o tempo todo. Quando conseguimos, apanhamos um veio, um caminho, uma senda, e seguimos por lá. Daí, pode nascer um conto, um romance, uma poesia, uma sugestão para um livro de imagens. As ideias podem ser apanhadas por toda parte, pois, no fundo, somos nós que as produzimos e dotamos de sentido.

A melhor página em branco?

Pode ser tanto aquela que continuará em branco (pois é melhor do que um mau texto), quanto aquela que será preenchida pela forma. Uma página em branco pode ser uma bela espera…

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