6 de maio de 2013

Outro autor do tamanho do Maracanã

Recebemos tantas continuações da história “Do tamanho do Maracanã”, de Cesar Cardoso, autor dos livros Você não vai abrir? e O que é que não é?, lançados pela Editora Biruta, que foi impossível escolher só uma para colocarmos aqui no blog.

E por isso, tã tã tã tã, a equipe do Blog Biruta Gaivota selecionou mais uma história super criativa. Apresentamos à vocês, Luciene Pereira, nossa autora da vez!

Vejam abaixo como ela desenrolou essa história de ir ver o jogo da final no Maracanã.

DO TAMANHO DO MARACANÃ

Nem era meu aniversário, mas o pai trouxe uns panos todos coloridos e disse pra mãe fazer uma camisa, um calção e uma bandeira pra mim. Tinha verde, amarelo, azul e branco, e eu perguntei se não podia ser tudo azul. O pai berrou pra eu largar de ser besta, azul era a cor da Argentina, que era o inimigo. Eu não sabia e até perguntei pro pai por que a Argentina era o inimigo, mas o pai não ouviu. Ele não gosta muito de ouvir, prefere é falar. E falou: te prepara porque você vai na final, na final. Lá no Maracanã.

No Maracanã!

A mãe foi logo pra máquina de costura e depois me chamou pra experimentar a roupa nova com aquelas cores todas. Eu perguntei pra ela como é que a gente se prepara para ir na final, mas a mãe só disse que o Maracanã era enorme e que eu não podia largar a mão do pai de jeito nenhum.

E passou o tempo todo repetindo: de jeito nenhum, de jeito nenhum.

A mana veio me espiar e ficou falando que aquilo era roupa de palhaço e que eu era palhaço. Eu expliquei que não era nada disso e eu até quis a roupa toda azul mas é que azul é a cor do inimigo, que é a Argentina. Ela disse que a Argentina não era inimigo coisa nenhuma e que eu só pensava isso porque era palhaço. E repetiu: “palhaço, palhaço!”. Eu comecei a brigar com ela, mas aí o pai chegou, perguntou logo se a gente queria dormir quente e mandou nós dois pra cama. 

Foi uma dificuldade pra eu dormir. Só ficava tentando adivinhar qual seria o tamanho do Maracanã, onde o pai ia me levar. O pai já me levou no cinema, na lanchonete e na praia, mas nunca nesse Maracanã, que era enorme. Antes de ir pra cama, eu me escondi atrás da porta do quarto do pai e ouvi a mãe perguntando pra ele se não era perigoso porque era final. E repetia “final, final”. Eu ainda pensei – será que o Maracanã ia acabar? O pai falou que não tinha perigo nenhum, mas a mãe achou que eu podia me perder.

E se eu me perdesse, será que o dono do Maracanã me trazia de volta?

No dia seguinte, acordei e perguntei pra a mãe quanto tempo levaria para finalmente o pai me levar pra assistir ao jogo da final. Aí, a mãe deu de ombros do jeitinho que sempre faz quando está muito contrariada e disse que não era certo falar as palavras “finalmente” e “final” na mesma frase, porque, afinal, eram muitos finais no final das contas. Fiquei confuso com esse embaralho de palavras e deixei pra lá porque dava pra notar que aquele não era um bom dia pra mãe.

O problema todo é que ela está preocupada com o fim do mundo no Maracanã. Com toda essa história do Papa ser Argentino e coisa e tal, ela deve tá pensando que por ele estar do lado do “inimigo”, que por acaso é a Argentina, a coisa vai ficar preta pro nosso lado, os brasileiros.  O bom disso tudo é que ouvi o pai dizer pro seu Tanaka, feirante japonês que mora na esquina da nossa rua e que detesta argentino, que essa preocupação da mãe não tem o menor cabimento. Imagina só?! Ainda mais sabendo que Deus é brasileiro! A vitória já tá ganha! Disse o pai.

Isso pode até ser verdade, mas, eu só fico preocupado de ter outra reviravolta antes do dia do jogo e Deus, bem nesse dia, decidir virar argentino igual ao Papa, que até outro dia nem gostava de futebol.

Pensando melhor, dá pra entender a preocupação da mãe. Pra falar a verdade, até eu fiquei um pouquinho preocupado, agora. Principalmente, porque me lembrei que conhecer o Maracanã é um dos dez itens que estão na minha lista de coisas pra fazer antes de me tornar um adulto cheio de compromissos e estressado.

E isso quer dizer que, se minha mãe mudar de ideia e não me deixar ir ao jogo, não riscarei este item. Foi aí que lembrei de uma coisa que o pai faz quando quer afastar a “zica” do seu time: coloquei um galho de arruda atrás da orelha e fiquei rezando pra Deus (que por enquanto é brasileiro), pra afastar o papa que é argentino do jogo da final.

A mana quando viu meu galhinho de arruda começou a me irritar dizendo que com aquele cheiro horroroso não tinha a menor chance do pai me perder no Maracanã. A mãe ouviu nossa conversa e achou graça, dizendo pra mim, que faltava menos de um dia pra jogo acontecer. Fiquei animado! Quando o pai acordou apareceu todo enrolado na bandeira do Brasil, dando muitos espirros e dizendo: nossa filho… pelo jeito a zica veio me visitar. Espero que até o dia da final ela me deixe em paz.

Poxa vida! Como dá trabalho ir ao Maracanã em época de mudanças religiosas. Agora vou ter que arrumar outra arruda pra mandar pra longe a zica da gripe que atacou o pai. Me parece que a gripe dele é Espanhola, o que não é bom sinal. Por enquanto, tudo o que posso dizer é que esse jogo da final vai virar uma baita confusão. Se antes, a mãe não queria deixar eu ir no Maracanã porque ia ter confusão com os argentinos, imagina agora, quando ela descobrir que a Espanha também entrou nesse rolo?

Luciene Pereira

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Uma resposta para “Outro autor do tamanho do Maracanã”

  1. Cesar Cardoso disse:

    Parabéns. Luciene.

    Um beijo,

    Cesar

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